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O Sentido da Vida

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Vifibi
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MensagemAssunto: O Sentido da Vida Qua Abr 14, 2010 5:05 am

O que "Deus" criou em seis dias, Vifibi estragou em três horas.


É muitas vezes dito que a história é escrita pelos
heróis, e que estes são imortalizados por ela. Enquanto é de fato verdade que
existem aqueles que serão para sempre lembrados, não é menos verdade que muitos
desses heróis estariam mortos, decapitados e muito provavelmente defecados em
cima caso não fossem agradáveis com aqueles que os ajudaram a chegar onde
chegaram.





Embora a história seja algo interessante de se discutir,
muitas vezes as pessoas comuns preferem falar sobre algo mais surreal e
inexistente do que a própria origem: O sentido da vida. Também é conhecido que
muitos ganham a vida fingindo tentar descobrir essa questão não tão
fundamental.





E, embora também fale de origens históricas e o fálico
sentido da vida, esta história não se trata de nenhum destes. Esta história é
sobre um homem e uma mulher, que compartilhavam um mútuo amor entre si, e por
Dire Straits.





O homem desta história não é um herói. De fato, ele gosta
muito de se achar um “Cara malvado”, apesar de, na verdade, ser um “Cara bacana”.
E, como todo “Cara bacana”, John era um “Corno”.





John trabalhava para o governo. Não gostava do trabalho,
e nem do governo. Ele tinha uma paixão pela escrita, mas nunca tomou uma chance
com ela, e simplesmente se acomodou no trabalho miserável que tinha.





Ele, como grande parte de sua geração, aprendeu sobre o
amor com filmes românticos, músicas de pop mal-escritas e cenários
shakespearianos de Romeu & Julieta em geral. Ele era, portanto, um tolo.





Lily, no entanto, não acreditava no amor. Ela acreditava
que existiam idiotas, e que existiam os chatos, e que ela era da segunda
categoria, apesar das tentativas desesperadas de seus pais de fazê-la ter mais
fé na vida.





Ela, ao contrário de John, gostava de sair, apesar de
sempre reclamar das músicas. John gostava de rock, apesar de sempre reclamar de
sair. Naquela festa mal-sucedida, no entanto, John compareceu, sob ameaças de
morte pelos seus amigos mais próximos.





Ele andava pelo bar, pensando em sabe-se lá o quê, quando
esbarrou na garota que gosta de ser chamada de Lily, num sentido bem literal da
palavra.





Quando ele olhou Lily pela primeira vez, ele pensou em
como os olhos verdes dela eram lindos, seus cabelos castanhos bem destacados,
seu corpo extremamente bem delineado, e em como a sorte parecia ter lhe sorrido
pela primeira vez em vários anos.





Ela, por sua vez, considerou tal encontro inconveniente,
um pouco irritante, e um tanto quanto doloroso. Mark, amigo de John, no
entanto, achou aquilo um tanto quanto surreal para ser verdadeiro.





- Ai! - Foram as primeiras palavras escutadas por John de
Lily.


- Desculpa, eu estava distraído.


- É, você deveria se desculpar. Isso doeu. Preste
atenção, droga!


- Olha, eu já me desculpei. Quer que eu faça o quê? Volte
no tempo e impeça-me de esbarrar em você?


- Tá, tá, dane-se. Nem sei porquê vim aqui de qualquer
forma...


- Bem, eu realmente sinto muito... Será que eu posso
te... Pagar uma bebida?


- Ah, você bate em mim, e depois se oferece para me pagar
uma bebida?


- Eu não bati em você! Eu esbarrei em você!


- Certo, certo. Bem, já que você vai me pagar uma bebida,
você vai me dizer o seu nome?


- É John.


- Bem, John, você é um desastrado. Obrigada pela bebida,
o nome é Lily, e adeus.





Para John, aquilo era o começo de algo estranho. Bom, mas
ainda assim estranho. Não chegou a descobrir, mas estava certo. Lily
simplesmente estava irritada demais para achar alguma coisa. No entanto, depois
se sentiu mal por ter descontado naquele “Pobre garoto”.





A raridade de John sair de casa, ainda mais para ir para
uma festa, sempre era marcada com sua total reclusão logo após, geralmente
acompanhada de uma ressaca. E, se ele
tivesse um pouco de sorte, apenas 20% de sua mente desejava se matar, que era
rapidamente calada por uma dose descomunal de aspirina.





- Noite difícil? - Disse a figura que quase o fez ter um
ataque cardíaco.


- Como você entrou?


- Não importa. Como foi a festa?


- Como você entrou? - John repetiu, no mesmo tom de
desespero.


- Como foi a festa?


- Eu te digo se você me disser como entrou.


- Tudo bem. Você me deu uma chave extra há uns dois
meses.


- Eu nunca te dei uma chave extra!


- Olha, não interessa. Como foi a festa?


- Foi... Bem. Eu esbarrei numa mulher tão bonita que
faria qualquer outra parecer um demônio mal-encarado, ela ficou irritada
comigo, eu paguei uma bebida para ela e ela foi embora reclamando. Depois disso
eu não me lembro mais nada.


- Belo modo de insultar sua melhor amiga e ainda por cima
demonstrar traços de alcoolismo.


- Obrigado, eu pratiquei a manhã toda.


- Pensei que você estivesse desacordado a manhã toda.


- Não, eu acordei umas três horas atrás. Estava me
decidindo entre me levantar para tomar aspirina ou me levantar para tomar
veneno.


- Eu ainda sonho com o dia em que você vai parar de
brincar com uma coisa tão séria quanto suicídio.


- E eu ainda sonho com o dia em que você vai parar de
entrar no meu apartamento e me dar ataques cardíacos.


- Como desejar, Sr. John. - Ela se lembrou de uma
brincadeira que os dois faziam quando eram crianças.


- Muito obrigado, Sra. Lidna. - O nome dela, John se
lembrou, foi um erro no cartório para o nome “Linda”. Ela, no entanto, gostava
disso, pois assim não “a confundiam com Linda McCartney”. Qual sentido isso
fazia ele não sabia.


- Bem, eu tenho que ir trabalhar, quando você for embora
tranque a casa, ok?


- Não, não, eu vou com você. Você me dá uma carona até em
casa.


- E por “Carona” você quer dizer pagar a sua passagem de
ônibus.


- Você me entende - Ela sorriu, sarcástica.





John todo dia chegava atrasado ao trabalho. Ele não
chegava atrasado por desejar, ou por erro, ele chegava atrasado por
simplesmente ficar preso no trânsito de oito da manhã, e não querer fazer como
seu chefe e sair de casa duas horas antes.





Seu chefe, como diriam os imbecis que acham que estão
fazendo algo de útil quando se chamam de “Filósofos”, era um niilista, e
portanto não ligava a mínima para si, para seus empregados, e sentia um
desprezo inacreditável por John. Ele não era de fato um niilista, era apenas
rabugento, mas “Niilista” soa melhor que “Babaca”.





- John! É a oitava vez seguida que você chega atrasado!
Onde você tem andado, seu imbecil?


- Não no trânsito, eu lhe garanto.


- Escute! Eu não quero saber do trânsito! Eu não quero
saber se você quer se matar! Você tem que chegar aqui na hora, e tem que chegar
sempre! Se isso significa que você tem que sair da Lavar a boca com sabão faz bem. da favela às três da
manhã, faça! É sua última chance, rapaz... Se você chegar atrasado de novo...


- Você vai fazer o quê? Me demitir? Nós trabalhamos para
o governo, não tem como alguém ser demitido sem uma audiência antes.


- Talvez não, mas isso não me impede de transferi-lo para
algum confim do Brasil! Você prefere o Acre, ou a Amazônia?


- Senhor Marks, acho que você tem uma visão extremamente
errada sobre essas duas áreas.


- Foda-se! Escute, rapaz. Eu não ligo a mínima para o
Acre, Amazônia, Brasília, e o resto. Eu ligo para mim. Ninguém se importa
comigo exceto eu, assim como ninguém se importa com você exceto você. Agora, ou
você começa a chegar na hora, ou vai ter que ligar para si mesmo na floresta,
no meio de um bando de índios!





Por uma estranha coincidência inacreditavelmente
improvável, quase que para provar a visão dele, um pequeno peixe, um arenque,
se formou espontaneamente no tanque de gasolina do carro do Sr. Marks, que, em
seu breve período de vida, teve apenas o pensamento “Tomara que não tenham
pescadores aqui
” antes de ser sugado para o motor do carro e efetivamente
triturado.





John estava deitado, deprimido e sem ter o que fazer,
como toda Segunda à noite. De fato, como todo dia à noite. Seu celular estava
tocando, mas ele resolveu esperar doze segundos e meio antes de atender. O
porquê, embora ele não soubesse, vinha de um de seus familiares distantes, que,
sendo um poeta e músico reconhecido mundialmente, sabia muito bem que qualquer
música boa deveria ter doze segundos e meio para cada cinco notas. Ele, é
claro, desconhecia que um de seus familiares usaria esse mesmo tempo como tempo
de espera antes de atender uma ligação, o que provavelmente o faria gritar “atende
o telefone, babaca!
” para ele.





- Alô? - Passaram-se doze segundos e meio.


- John! Eu preciso te pedir um favor. - Era Lidna.


- Às... Oito da noite? - John desistiu de arranjar uma
desculpa, percebendo o quanto patético estava - Tudo bem. O que é?


- Uma amiga minha está presa numa festa. O namorado à
largou lá, depois de brigar com ela, e ela não tem dinheiro para ir para casa.


- E você não pode ir por quê...?


- Porque eu estou trabalhando, caso você não se lembre.


- Ah, é, você trabalha como stripper.


- Bartender, idiota. Mas você pode buscá-la para
mim? Ela está no clube Mikhail und Lieberschain.


- Tudo bem, eu busco ela.


- Obrigada. Depois eu te dou o dinheiro da passagem.


- Não, não precisa.


- Tudo bem então. Eu vou ligar pra ela e avisá-la.





Mikhail und Lieberschain era a maior boate do Rio de
Janeiro. Ela tocava péssima música - Funk em geral -, mas era bem-sucedida pelo
simples fato de ter um nome em alemão e se chamar de “A boate mais exclusiva do
Rio”. Como resultado, toda a elite do Rio de Janeiro - Sendo considerado “Elite”
qualquer um que tenha feito um papel numa novela - encontrava seu lar lá, em
meio à péssima música e bebidas ainda piores.





John, no entanto, não ligava a mínima para a boate, para
o funk, para a elite e nem para novelas. Ele simplesmente estava entediado o
suficiente para fazer algo altruísta. Na porta do clube, no entanto, ele se
surpreendeu.





Sentada no banco do ônibus, estava Lily, quem ele
conhecera na festa, e que simplesmente tomou uma bebida e foi embora. Seu
primeiro instinto foi deixá-la ali, mas algo nele o fez sair do ônibus e chamar
por ela.





- Lily?


- Sim! Você é o amigo da Lidna?


- Sim, sim.


- Espera, você me parece familiar...


- Ontem eu te paguei uma bebida numa festa, e você me
insultou.


- Eu sabia que você parecia familiar. E se me lembro bem,
você bateu em mim.


- Eu esbarrei - John corrigiu rispidamente - em você.
E já pedi desculpas mais vezes do que posso contar. Mas, isso não importa, eu
vou te levar para casa.


- E como você pretende fazer isso?


- De ônibus.


- O mesmo ônibus que acaba de sair?


- Sim, o mesmo ônibus que acaba de sair - John retrucou
firmemente, apesar de ter tentado apalpar o - Já não mais ali - ônibus.


- Belo resgate, John.


- Obrigado. E obrigado de novo por lembrar-se do meu
nome. Agora, quando passa o próximo ônibus?


- Acho que em uma hora.


- Uma hora? Eu posso ir para casa a pé mais rápido que
isso.


- É, bem, eu não posso. Você pode me emprestar dinheiro
para um táxi?


- Com prazer, se eu tivesse.


- “Se” você tivesse? Que tipo de idiota anda na rua com
dinheiro exato para a passagem de ônibus?


- É, é... Eu sou um idiota, blá blá... Escuta, aqui está
o dinheiro para o ônibus, adeus e obrigado por todos os insultos - John se
virou para ir embora, quando ouviu a voz relutante de Lily.


- Ei... John?


- Sim?


- Será que você pode... Esperar comigo? Não conheço essas
partes, e não quero ficar sozinha.


- Sozinha? Tudo bem... Eu fico com você.


- Obrigada.


- De nada, medrosa.


- Vá se ferrar.


- É, bem, por mais que eu adore nossas conversas, eu vou
ouvir um pouco de música. Sinta-se livre para continuar falando, no entanto.
Aposto que, se passar algum médico por aqui, ele pode te pôr num manicômio.





Lily passou meia hora sem falar nada, e já estava morta
de tédio. Por mais que detestasse a idéia, tentou puxar assunto com o idiota ao
seu lado. Que, por sinal, estava quase fazendo a mesma coisa. Não por tédio,
mas por interesse.





- Então... - Ela começou.


- Sim?


- Que música você está ouvindo?


- Ah... Você provavelmente não vai gostar.


- Vamos, me diga.


- Tudo bem... - John passou um dos fones de ouvido para
ela, que imediatamente reconheceu o som da guitarra de Eric Clapton tocando “Strange
Brew
”.


- Cream? Você gosta de Cream?


- Sim, eu adoro. Gosto de música velha mesmo.


- Inacreditável.


- O quê?


- Eu também.


- Uau.


- O quê?


- Você não parece o tipo de pessoa que goste de Rock.


- É bem, você também não. Você parece do tipo que gosta
de Pop.


- E você parece do tipo que gosta de “Proibidão” - John sabia
que ia levar um tapa. E, de fato, levou, com a surpresa de que ambos estavam
rindo.





Os dois passaram duas horas conversando, embora
parecessem ter passado apenas dez minutos. Por fim, desistiram do ônibus. John
queria chamá-la para ir para a casa dele, mas não tinha a coragem para isso.
Ela, no entanto, se ofereceu para ir. Ambos nunca saberiam, mas o fato de quase
nunca passarem ônibus em frente ao Mikhail und Lieberschain era um dos fatores
decisivos para a “exclusividade” do clube.





O apartamento de John era, assim como ele próprio, uma
bagunça. Lily não pareceu se importar, inclusive dizendo que “A lembrava de sua
casa”. Sentou-se na cama, esperando algum tipo de cantada barata por parte de
John, que quebraria instantaneamente todo o interesse que ela sentia por ele. Nunca
ocorreu.





- Aqui está o dinheiro para o táxi - John ofereceu uma
quantia de dinheiro, timidamente.


- Eu mudei de idéia.


- Hein?


- Posso passar a noite aqui?


- Ah... Pode! - Na mente dele, ele levou um tapa de sua
consciência - Eu vou dormir na sala, então você pode ficar na cama - Ele levou
outro tapa.


- Tudo bem... Mas você vai dormir agora?


- Não, por quê?


- Nada, só quero conversar um pouco mais.


- Tudo bem... Só vou botar uma música então, ok? Vou
botar baixo, não se preocupe.





John pôs para tocar sua seleção de “Rock & Roll” que
ele passava horas baixando. Começou com Jimi Hendrix, o que causou a começa da
conversa, que, de outra forma, seria mais tímida. Depois de alguns minutos de
conversa, no entanto, começou a tocar Dire Straits.





Existe uma certa magia relacionada à Dire Straits. Numa
pesquisa britânica para descobrir quais eram os afrodisíacos mais potentes que
não fosse drogas, Dire Straits ficou em segundo, perdendo apenas para dinheiro,
o que provavelmente demonstra uma certa ironia.





John acordou na manhã seguinte, sozinho - E sim,os dois
transaram. Em um resumo breve, ele foi bom o suficiente para ela falar para
Lidna -, com seu celular tocando. Ele atendeu após doze segundos e meio,
ouvindo insultos imaginários de seu ancestral músico.





- Eu disse pra você ir buscá-la! Não transar com ela!


- Bem, da próxima vez seja mais específica.


- Muito engraçado. Afinal, o que diabos você acha que
está fazendo?


- “O que diabos estou fazendo”? Como assim?


- Ela está namorando, seu tonto.


- É, você me falou isso ontem.


- E você não está sentindo nem ao menos uma pontada de
ironia com isso tudo? Especialmente desde que sua última namorada...


- Eu ainda me lembro o que aconteceu entre minha
ex-namorada e seu ex-namorado, mas isso não importa. Foi coisa de uma vez
apenas. Eu nem tenho o telefone dela, e nem ela o meu. Não é como se ela fosse
contar para o namorado nem nada. E, de vez em quando, é bom ser cruel com o
mundo, especialmente quando ele só te tratou mal.


- Detesto interromper sua lenta descida à insanidade e vadiagem,
mas ela me contou, o que significa que talvez ela também conte para o namorado.


- Bem, eu duvido. Ei, que horas são?


- Nove, por quê? - John quase engasgou.


- Estou atrasado! Tenho que ir, tchau!





John, como não deve ser surpresa, chegou atrasado. E foi
apresentado duas escolhas igualmente desastrosas e deprimentes: Ser transferido
para Manaus, ou pedir demissão. Ele escolheu a segunda.





Em casa, perambulava sem rumo. Tinha dinheiro o
suficiente para se manter por três meses, mas era só. Se acabassem esses três
meses e ele ainda estivesse sem emprego, estaria acabado. Não teria dinheiro
para o aluguel, não teria dinheiro para comer, não teria saída.





No entanto, ele simplesmente ligou o computador. Checou
os e-mails abriu o Word, e bateu a cabeça no teclado, formando, por uma
estranha coincidência, a palavra “Merda”, entre outras coisas ilegíveis.





John não era o tipo de homem que lidava bem com situações
desesperadoras. E, como todo homem que não lida bem com situações
desesperadoras, ele se embebedou. Se embebedou e escreveu, durante uma semana.





Ao final da semana, ele estava morto. Bem, não morto, mas
devidamente exausto. E não se animou muito quando ouviu a porta do seu quarto
se abrindo. Era, para seu desgosto, Lidna. Ela se jogou em cima dele, tentando
ressuscitá-lo.





- Lidna.


- Ei! Você está bem! Você sabe o susto que me deu? Você
passou a semana inteira sem nem ao menos dar notícias! Não entrou no MSN, não
atendeu o telefone, nada! Eu pensei que você tivesse morrido!


- Bem, eu estou morto de cansaço, mas agradeço a
preocupação. Você pode sair de cima de mim agora?


- Ah, sim, claro, claro - Ela se levantou, um pouco
envergonhada.


- Ei, o que é isso? - Ela começou a ler o que John passou
a semana inteira escrevendo.


- Nada! Não é nada! Vamos, saia daí.


- Hey, isso é bom. Engraçado. Quem escreveu?


- Fui... Eu.


- Você? Jura? Mas você não tinha desistido de escrever?


- É, eu tinha, mas eu fui demitido.


- O quê! Demitido? Mas você não trabalha - Bem,
trabalhava, para o governo?


- Sim, e eu não fui “Demitido” por alguém me demitir, eu
pedi demissão.


- Pediu?! Seu idiota! Eu sei que é ruim, mas você precisa
trabalhar!


- Se eu ficasse, eu seria transferido para Manaus.


- Ah. Bem... Então... É diferente. Deveria ter falado
logo.


- É, talvez eu devesse.


- Mas, sobre o texto...


- Não.


- É bom. Você tem talento. Sempre teve.


- Não!


- Isso está bom, John. Por que você não tenta publicar?
Eu já vi que tem umas duzentas e poucas páginas.


- Está completo, e eu não vou tentar publicar.


- Por que não?


- Porque não. Eu não sou bom em escrever.


- Se você diz... - Ela suspirou - Ah! Isso me lembra. A
Lily andou falando comigo sobre você, e quer que você dê uma ligada para ela.


- Quer? Por quê?


- Não sei. Mas aqui está o telefone. Ligue se quiser.


- Tudo bem, obrigado.


- Bem, eu vou embora então, já que você não é um cadáver.


- É, muito obrigado por quase me matar tentando me
salvar.


- De nada, amigo. Ligue se precisar de mais uma dose.


- Você é minha amiga, não meu traficante!


- Tanto faz! - E foi embora.





John ponderou sobre o telefone durante algum tempo. Era
tempo o suficiente para decorá-lo, mas não o suficiente para que ele pudesse
alucinar olhando para o pedaço de papel. Por fim, desistiu, e ligou.





- Lily?


- Oi! Sabia que você ia ligar.


- Bem, eu quase não liguei.


- Não? Por quê?


- Porque, sinceramente, eu quase fui morto pela Lidna
enquanto ela tentava me “Salvar”.


- Ah - Ela riu, eu sei como é. Foi assim comigo quando eu
tomei meu primeiro porre.


- Comigo também, só que na época ela era bem menor.


- Quantos anos vocês tinham?


- Foram uns... Seis anos atrás... Eu tinha 14.


- Uau. Parece chato.


- Não, era divertido. O chato foi ela pulando na minha
barriga.


- Posso imaginar - Ela riu outra vez. - Escuta, o motivo
que eu queria que você me ligasse... Eu quero te ver de novo... Mas eu não
quero largar meu namorado. Será que eu posso ir aí hoje de noite?





Uma coisa interessante e curiosa de se observar é o
efeito de uma mulher sobre um homem. John passou de um anti-social rabugento
que mal saía de casa para um anti-social rabugento que saía de casa para ir
visitar sua amante. Talvez não fosse uma grande mudança, mas ainda assim era
uma mudança.





Três meses vieram e foram, e John sentia-se mais e mais
apaixonado por Lily. No entanto, o mais que ele se aproximava dela, mais ele se
distanciava de Lidna, que, por sua vez, também não falava com ele. Foi só ao
fim de três meses sem fazer nada exceto passar tempo com ela que a vida dele
desabou por completo.





- John.


- Sim?


- John, eu não posso mais fazer isso.


- Como assim?


- Eu não posso mais vir aqui, nem você vir em minha
casa...


- Por que não?!


- John, ontem à noite, meu namorado me fez uma proposta.


- Que proposta? - Ele perguntou, mesmo já sabendo a
resposta.


- Ele... - Ela não conseguiu falar. Apenas mostrou o anel
em seu dedo.


- Mas... Mas você me ama!


- Não, eu não amo.


- Sim, você ama. E você sabe que ama!


- Eu não amo, e nunca amei! O que nós fizemos foi um
erro, e eu não quero mais te ver!


- Certo... - John disse, simplesmente - Continue
repetindo isso. Quem sabe algum dia alguém acredite em você. Já que é adeus,
então pode ir. Eu não vou te impedir.


- John... Eu... Sinto muito. Adeus.





John se jogou na cama, exausto, deprimido, e chorando.
Não conseguia manter aquilo dentro de si, mas não lembrava de ninguém para
compartilhá-lo. Então, por acaso, se lembrou de Lidna. Procurou o telefone
dela, e ligou. Meia hora depois, ela estava na casa dele.





- Então... Ela vai se casar.


- Sim.


- E você não vai fazer nada?


- Não.


- Como assim, não?! John, você ama ela.


- Sim, eu amo, mas quem se importa?


- Como?


- Você, por acaso, seria capaz de acabar com a felicidade
de duas pessoas apenas pela sua própria? Que muito provavelmente nem vá durar?


- John...


- Eu sei que ela me ama, eu sei. Mas ela ama o namorado
mais. Eu não quero estragar a felicidade de outras pessoas só pela minha
própria. Eu conheço esse tipo de cara, e eu odeio esse tipo de cara. Eu não
quero me tornar ele. Eu...


- John! Cale a boca!


- Hein?! - Ele se calou, assustado.


- Argh, toda vez. Toda vez, é assim, John. Você acha algo
que quer, que você deseja, mas nunca vai atrás. Você nunca se arrisca, nunca
aproveita uma chance, sempre se amedronta e foge para o que lhe parece mais seguro!
Desculpe, John, eu te amo, e eu te amei por onze anos, mas isso é demais. Eu
não sou mais sua amiga. Eu não te conheço mais. Não me ligue. Eu não quero ter
de sofrer só porque você não consegue perceber o que é importante ou não.
Adeus.


- Lidna! Espere!


- Não. Adeus. - E, da mesma maneira que Lily, foi embora,
para sempre.





John foi deixado à própria sorte, na escuridão. Ele
deitou no chão, pensando. Lidna estava certa. Ele não podia ficar a vida
inteira se escondendo. Ele tinha que se arriscar. E, naquele momento, era tudo
ou nada.





No dia seguinte, de manhã cedo, ele tomou banho, e se
arrumou. Pegou o que tinha que pegar, e saiu. Atravessou a cidade em quinze
minutos, e finalmente chegou aonde queria. Segurou o pacote com força, e entrou
no prédio. Acima da porta, liam-se as palavras “Editora Redação”.





Bem, e assim termina a história de John. Pelo menos a
história que será contada hoje. Talvez vocês reclamem que ele não terminou nem
com Lily, e nem com Lidna, mas a vida não funciona assim. Muitas vezes, um “Adeus”
de fato é para sempre.





Mas, quem sabe? Talvez no futuro. A vida dá voltas.





Agora, sobre o “Sentido da Vida” prometido no título, ele
já foi entregue. Caso você tenha perdido, re-leia o conto.





Re-leu? Ainda não achou? Então vou te contar.





O Sentido da Vida, caro leitor, é como um arenque
espontaneamente formado no tanque de gasolina de um carro. Não faz muito
sentido, dura pouco, e, honestamente, não importa muito. Exceto para o dono do
carro, claro.





Não gostou? Pois bem. Há um número de anos, um escritor
descobriu o sentido da vida, mas ele era tão simples, numérico e inocente, que foi
simplesmente tomado como piada e ignorado pela maioria. A ironia - A vida está
cheia delas -, é que aquilo era, de fato, o sentido da vida.





A humanidade, caro leitor, é um tanto quanto louca. Isso
é, quando é interessante, claro. Ela busca incessantemente por um sentido para
o que faz, ao invés de simplesmente fazer. A vida, afinal de contas, não
precisa de um sentido. Até porque, ela não faz sentido.





Nós passamos muito tempo nos concentrando em tentar achar
um sentido em deuses, livros, comédias, dramas, paradas, luas, poemas, e etc.,
ao invés de simplesmente apreciá-los pelo que realmente são. Existem aqueles
que não podem lidar com o conceito de não ter um sentido, um propósito, e
substituem esse vazio com uma entidade, muitas vezes levando tal crença a
níveis absurdos, de causar até mesmo violência ou intolerância à outras
crenças. Tudo porque eles discordam sobre qual de seus “Deuses” é o que é o
verdadeiro sentido da vida.





Talvez seja apenas humano, talvez seja apenas social,
talvez seja apenas pura burrice patológica e sem sentido, mas todos buscam um
sentido, por mais que ele seja impossível de ser encontrado. Mas, sabe como é.
É a vida.
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