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Collin, Collin

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Vifibi
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MensagemAssunto: Collin, Collin Qua Mar 17, 2010 10:41 pm

- Collin, eu sei que você está dormindo... Mas eu estou me sentindo um pouco sozinho. Vamos conversar, que tal? ... Tudo bem, não precisa me responder. Collin, eu realmente gostaria que você acordasse... Tudo bem. Tudo bem. Não vou tentar te acordar. Eu só queria te contar uma história. Eu estava me lembrando da minha mãe. Moça gentil ela era.
- Eu lembro que ela toda manhã me acordava para ir ao colégio, que naquela época ainda era separado entre meninos e meninas... Não que isso faça muita diferença para você. Me servia um copo de café, preto, bom. E depois me levava até a rua pra se despedir. E quando eu voltava, mesmo ela estando cansada arranjava um modo de conversar comigo. Era uma dona-de-casa, coitada, nunca aprendeu a ler direito, mas era tão esperta que até me ajudava em matemática.
- Eu adorava meu colégio. Minhas professoras eram novas, mas sabiam muito. Nós, os alunos, sempre tentávamos aquelas gracinhas que garotos de quinze anos tentam. Um dos garotos, o Elroy, tenho quase certeza que ele conseguiu pelo menos ver a nossa professora de literatura de sutiã. É claro que, naquela época, ver um sutiã era quase como perder a virgindade. As revistas para adultos eram mulheres de sutiã.
- Na frente do meu colégio, você vê, tinha um outro colégio, de meninas. Os dois colégios dividiam o pátio na hora do almoço, e nós sempre arranjávamos uma desculpa para ficar até depois do recreio conversando com as moçoilas. Uma delas, Collin, você conhece. Elisabete, aquela ternura de cabelos negros e olhos verdes. Os pais dela eram franceses, e sempre tentavam me ensinar quando eu ia namorar a filha deles.
- Pra falar a verdade, eu só fui aprender francês quando eu tinha dezoito anos, quando resolvi casar com a Elisabete. Eu lembro até hoje, veja só: Me casei com os mesmo sapatos que usei quando a conheci. É claro que meu pé cresceu um pouco entre o encontro e o casamento, mas eu insisti. Era a nossa "Coisa velha". Agora a coisa velha sou eu.
- E nós fomos felizes, Collin. Ela sempre me ajudava. É claro que teve o dia em que minha mãe morreu. Eu chorei muito naquele dia. E comecei a trair minha mulher, embora me arrependa muito. Eu dormi no sofá por dois anos, quando finalmente larguei o álcool e as mulheres. Mas quando eu larguei, fomos felizes de novo. Até que teve um dia que ela me falou. Estava grávida.
- Naqueles tempos, Collin, eu tinha uns trinta anos. E era mais alegre do que poderia contar. Meus amigos todos já tinham tido seus filhos aos vinte, e me achavam meio estranho, mas eu não ligava. Agora eu ia ter meu filho, meu próprio, e estava feliz com isso. Foram nove meses que nós vivemos, e nove meses que jogamos fora, no final.
- O bebê, Collin. O bebê era uma garota. Mas não apenas uma garota, uma garota morta. Nasceu morta. Não queria respirar. Minha mulher ficou muito deprimida. Eu não entendi o porquê de eu não ter chorado por isso. Eu queria ter chorado. Eu ainda quero. Mas só minha mulher chorou. E eu sentia que ela me odiava por eu também não chorar. Ela não queria mais sair da cama. Não queria sair de casa. Não queria falar comigo.
- Foi justamente nessa época, vinte e poucos anos atrás, que eu te comprei. Te vi numa loja aqui por perto, e o modo como você olhou pra mim simplesmente não dava pra não comprar. Vocês cachorros se vendem sozinhos, Collin. Levei você naquela caixa com furos de presente para Elisabete, e ela simplesmente te jogou para o lado, se lembra?
- Mas com o tempo foi melhorando. Ela acabou superando a morte da nossa filha, e começou a te dar atenção, carinho, amor. Mas a cada dia que passava ela continuava ficando mais pálida, mais fraca. Por fim eu não tive escolha, por mais que ela dissesse que estava bem. Levei-a no médico. Eu fui com ela e voltei sem ninguém. Estava com câncer, se você não sabia ainda. Acho que agora já existem tratamentos melhores contra cancêr, mas antigamente câncer era morte.
- E ela chorava. Como ela chorava. Eu não podia te levar para visitá-la, o que me deixava ainda mais deprimido. Ela te amava muito, Collin. Por fim, depois de eu ter passado três noites indo e voltando, ela morreu. Simplesmente desistiu. Às vezes eu acho que, se eu tivesse levado você, ela ainda estaria viva, sabe, e que você ainda falaria comigo.
- Mas ela morreu. Eu não pude fazer nada, nem você, nem deus, nem ninguém. E ficamos eu e você, aqui em casa. Meus amigos todos sumiram, meu trabalho me aposentou, e com o tempo até você começou a passar mais tempo dormindo do que falando comigo. Hoje em dia você fica aí, deitado, sem nem me dar atenção. Sabe, Collin, eu realmente gostaria que você acordasse. Por favor, acorde...
- Tudo bem. Não vou insistir. Também vou dormir, estou cansado...
- Boa noite, Collin.
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